ENCONTROS E DESENCONTROS NA CIDADE DAS LETRAS
No exactamente como fundar una ciudad
sino más bien como fundar una dinastía
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calles y labios árboles y pasos
no se planifican con paz ni compás
sino con una sarta de esperanzas y delirios
Mario Benedetti
No princípio foi... Piria, Don Francisco Piria, imigrante italiano que chegou ao Uruguai em fins do século dezenove: um visionário arrematador/leiloeiro de terras, criador da cidade-balneário de Piriápolis, precursora da hoje famosa Punta del Este. Sua “polis” privada, idealizada para atender ao sonho das burguesias uruguaia e argentina da época, cuja única linhagem era o dinheiro, deveria contar com empresa imobiliária, castelo, hotel e adega, com qualidade e gosto europeus. Essa composição requereria a importação não só de materiais, mas também de mão-de-obra adequados, incluindo o adegueiro, que foi o químico e reputado enólogo Brenno Benedetti, oriundo da Umbria.
Como Don Francisco agia com total desrespeito aos seus compromissos contratuais, Brenno Benedetti foi obrigado a levar suas expectativas frustradas de prosperidade no Novo Continente a tentar a sorte em Montevidéu. Mais tarde, um de seus filhos, também Brenno, também químico e enólogo, fez o caminho inverso em busca de futuro numa farmácia do interior. Mas, igualmente ludibriado nos negócios, ele voltou à capital, em 1924, com seu filho Mario Benedetti, que, ainda criança, deveria entrar no mercado de trabalho e peregrinar por vários empregos em escritórios, repartições públicas e firmas comerciais, entre as quais a firma dos descendentes do velho Francisco Piria
Desde seus dias de aluno do Colegio Alemán, Mario Benedetti escrevia poemas. Mais tarde, sentado à sombra das árvores na Plaza San Martín, de Buenos Aires, onde estava a trabalho como taquígrafo, decidiu ser un poeta para publicar. Fora inspirado pela obra do argentino Baldomero Fernandez Moreno que escrevia poemas de canto diáfano y coloquial en el que podia mirarme y reconocerme, justifica.
Por volta de 1950, deu-se um fato inédito: um livro de poemas estava sendo lido pelo uruguaio médio, no ônibus, à caminho do trabalho, ou nos momentos de ócio nas repartições públicas. Benedetti, autor do livro, conta, comovido, a seguinte anedota:
(...) um dactilógrafo del Banco Comercial, en un momento de poco trabajo, se puso a leer disimuladamente mis Poemas de la oficina y llegó a Dactilógrafo. De pronto se puso a llorar desconsoladamente y no tuvo escrúpulos (delante de compañeros y clientes) en cruzar de brazos sobre la Underwoord y esconder allí su afligida cabeza.[1]
A poesia finalmente chega ao leitor e se comunica com ele. O leitor não mais é tema, mas personagem. Na poesia, ele pôde se ver, se reconhecer e se sentir próximo à personagem literária. O homem fictício que o criador lhe oferecia era uma criatura que tinha a ver com o seu próprio mundo.
No princípio foi...Piriápolis, a cidade planejada pelo visionário Piria que em planos, plantas e projetos desenhava, através do compasso, o mapa da cidade sobre o papel. Unidade, planificação e ordem rigorosa, a razão precedendo à realidade e planejando como deveria viver a sociedade. Para tornar-se realidade, essa cidade requereu escrituras que garantissem a posse das terras arrematadas e os direitos de um grupo social que, nos fins do século XIX, ainda construía sua imagem espelhando a metrópole. Parece perfilar-se, em Piriápolis, a “cidade ordenada” de que nos fala Angel Rama em La ciudad letrada, ao tratar da fundação das primeiras cidades nas colônias espanholas. Uma cidade que nasce do sonho da razão do conquistador europeu de impor ordem à realidade que encontrou, nas terras do novo continente, o único lugar propício para se materializar. Explica Rama:
Una ciudad previamente a su aparición en la realidad, debía existir en una representación simbólica que obviamente sólo podían asegurar los signos: las palabras, que traducían la voluntad de edificarla en aplicación de normas y, subsidiariamente, los diagramas gráficos, que las diseñaban en los planos, aunque, con más frecuencia, en la imagen mental que de esos planos tenían los fundadores.(...). Para asegurar la posesión del suelo, las ordenanzas reclamaron la participación de un script (en cualquiera de sus divergentes expresiones: un escribano, un escribiente o incluso un escritor) para redactar una escritura. A esta se confería la alta misión que se reservó siempre a los escribanos: dar fe, una fe que sólo podía proceder de la palabra escrita, que inició, así, su esplendorosa carrera imperial en el continente.[2]
Antes mesmo do surgimento do Uruguai como país, numa tentativa de deter o avanço lusitano e interessada em estabelecer-se na estratégica Banda Oriental do Rio Uruguai, a coroa espanhola decretou a fundação de uma cidade fortificada na Bahia de Montevidéu que haveria de ser povoada, segundo as ordens do rei, por cinqüenta famílias enviadas desde as Ilhas Canarias. Fora forjada, assim, Montevidéu – a “cidade porto”, a “cidade forte” de que nos fala Rama – para assegurar o domínio de um território ainda de limites desconhecidos. Com o tempo, essa cidade transformou-se na capital da República Oriental del Uruguay, e hoje reúne quase cinqüenta por cento da população do país, a administração e os serviços públicos governamentais. Montevidéu configura-se, assim, como o protótipo da "cidade ordenada" que haveria de se transformar na “cidade letrada” pois, segundo Rama, dentro da
(...) ciudad bastión, la ciudad puerto, la ciudad pionera de las fronteras civilizadoras, pero sobretodo la ciudad sede administrativa, siempre hubo otra ciudad, no menos amurallada ni menos sino más agresiva y redentorista que la rigió y condujo. Es la que creo que debemos llamar la ciudad letrada, porque su acción se cumplió en el prioritario orden de los signos. (...) y que componía el anillo protector del poder y el ejecutor de órdenes: una pléyade de religiosos, administradores, educadores, profesionales, escritores y múltiples servidores intelectuales, todos esos que manejaban la pluma.[3]
Voltemos ao princípio...à Piriápolis, e nas entranhas de Piriápolis, à sua adega – aquele compartimento subterrâneo da casa, para guardar azeite, vinho e outras bebidas; mas também despensa, onde se guardam gêneros alimentícios – para encontrar a presença vital do substrato de que se alimenta essa nação latino-americana: o enólogo italiano, o imigrante europeu.
Dentro da evolução do Uruguai, a “importação” do enólogo italiano, Brenno Benedetti, para a construção de Piriápolis e o seu posterior traslado a Montevidéu, já estavam previstas por uma legislação de fomento ao estabelecimento de colônias de imigrantes que fortaleceriam o poder das cidades letradas da Bacia do Prata. Estatísticas da época afirmam que, em menos de 40 anos, entre 1860 e 1900, chegaram ao país, que hoje tem três milhões de habitantes, dois milhões de estrangeiros, em sua maioria espanhóis, italianos, franceses e ingleses[4]. Essas levas de imigrantes se integrariam a uma predominante classe média sem grande apego às tradições espanholas, liberal em seus hábitos e crenças e aberta às novas teorias que iriam transformar a cidade letrada.
Assim, paralelamente ao crescimento da cidade, deu-se a sua modernização. Segundo Rama, sob as idéias do racionalismo e do positivismo da segunda metade do século XIX, formula-se uma estratégia para diminuir os privilégios abusivos da cidade das letras: reconhece-se claramente o império da letra, introduzindo nela, através das leis de educação comum, a novos grupos sociais. Nessas mudanças, como assinala Beatriz Sarlo,[5] são beneficiados os filhos dos imigrantes que ingressam nas universidades, como o fez Brenno Benedetti (filho), que tornou-se químico no Novo Continente
Em 1877, instituiu-se no Uruguai, uma nova lei de educação que previa três condições fundamentais: uma autonomia financeira que protegia a educação das contingências políticas e econômicas, a descentralização administrativa, a unidade na organização de um sistema educativo gradual, do mais alto nível técnico, que se estendesse das primeiras letras ao ensino superior e a laicidade do ensino, ao afastar, definitivamente, a Igreja de sua tradicional participação evangelizante, educadora e civilizatória junto à cidade letrada.
Na cidade modernizada, centro burocrático da administração, das instituições públicas e da política, crescem novos setores – a educação, o jornalismo e a diplomacia – que funcionariam com uma relativa autonomia em relação ao poder central e onde haveriam de agir os intelectuais dentre os novos letrados. Algumas décadas mais tarde, Mario Benedetti se inscreveria nesses elementos referidos em La ciudad letrada como jornalista, poeta, contista, crítico e em outras atividades literárias.
Em 1911, inaugurou-se segundo Rama, nas cidades latino-americanas, a era das revoluções que se caracterizou, não por rupturas violentas, mas por mudanças sociais profundas. Essa recomposição da cidade foi visualizada através de um novo conceito de partido político como instrumento para assumir o poder. Aconteceu, quase simultaneamente, no México, na Argentina, no Brasil, com Getúlio Vargas, e mais tarde em outros países.
No Uruguai, após ter derrotado definitivamente o seu tradicional opositor – o partido blanco – a figura carismática e caudilhista de José Batlle y Ordoñez assumiu o seu segundo mandato na presidência do país, como chefe do partido colorado. Apoiado numa pujante renda agrária, principal fonte de recursos da nação, e no investimento estrangeiro atraído pela estabilidade política, o governo de Batlle promoveu uma legislação que foi um verdadeiro welfare state para a predominante classe média e o operariado urbano. O paternalismo do estado garantiu sua clientela política ao assimilar a mão-de-obra ociosa cooptada, não só nas fileiras dos intelectuais, como também da classe média, que vinha usufruindo uma educação de alta qualidade garantida pela cidade modernizada, na qual Batlle investiu facilitando-lhe o acesso ao ensino de segundo grau.
Esculpiu-se, assim, a face do cidadão-leitor uruguaio que haveria de se ver retratado nos textos de Mario Benedetti. Quando leitor significava uma elite reduzida, o meio social virtualmente não exercia influência alguma na literatura; mas quando a palavra passou a significar vários milhares de ávidos consumidores, então pôde influir sobre o escritor e sua atitude[6]. Emir Rodriguez Monegal resume assim a situação:
Se consolidó asi una política de paternalismo que hacía derivar todos los problemas hacia soluciones oficiales; se creó una formidable clientela electoral a la que mantenía inmóvil con promesas (y algún anticipo) de futuros cada vez más rosáceos; se auspició el quietismo y la autosatisfacción. Sin poblaciones indígenas que asimilar, con un alto índice de alfabetismo, en un território de clima templado y casi totalmente aprovechable, el Uruguai era una excepción en un continente atravesado por los problemas sociales y políticos, devastado por el clima y extremos topográficos, de población hostilmente dividida. La afluencia inmigratória, tan decisiva para la fisionomia actual del país, había inclinado nítidamente la balanza hacia el Viejo Mundo. El Uruguay era el país más adelantado de América: era europeo.[7]
O bem-estar e a aparente democracia – o Uruguai era apelidado “a Suíça da América”- que eram sustentados por uma economia circunstancialmente propícia sem que se planejassem reformas nas bases de produção de riquezas – conseguiram sobreviver, transitoriamente, pelas boas comercializações de produtos agropecuários durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coréia. Mas, por trás da cidade letrada, existia uma cidade real. Por volta de fins dos anos 50, a realidade do país começa a doer.
No entanto, as profundas mudanças sociais, o ufanismo e o quietismo promovidos pela cidade revolucionada, haviam moldado de tal maneira o cidadão uruguaio, funcionário público e de escritórios – o oficinista- no transcurso de várias gerações, ao ponto de impedir-lhe enxergar o processo de deterioração de sua condição. Ele aferrava-se fanaticamente à Seguridad do emprego público ou das leis trabalhistas, frustrado e passivo diante da falta de perspectivas e sem coragem de reagir. Essa dramática realidade nacional foi vista, ironicamente, por Mario Benedetti:
Si mi intención fuera dar a este capítulo un tono satírico, tendría que empezar diciendo que el Uruguay es la única oficina pública del mundo que ha alcanzado la categoría de república, pero no sé hasta qué punto sería lícito tomar a la chacota uno de los aspectos más oscuramente dramáticos de nuestra vida nacional. (...). Lo que verdaderamente importa es el estilo mental del Uruguay y ese estilo es de oficinistas.[8]
A acordar esse cidadão de sua letargia, a mostrar-lhe saídas possíveis, a desmascarar a cidade letrada e a abrir caminho à cidade real, propõe-se um grupo de intelectuais, a maioria deles críticos, alguns também escritores, pertencentes à geração de 45, entre outros, Angel Rama, Emir Rodrigues Monegal e o próprio Benedetti, todos eles integrantes da classe média, geralmente filhos de imigrantes, que vivem suas vidas adultas em Montevidéu.
Embora sobrevivam nas funções escriturárias que a cidade modernizada e revolucionada lhes proporciona – na educação, no jornalismo, nos escritórios e nas repartições públicas – não se transformam, por isso, como as gerações anteriores de intelectuais, em funcionários-escritores “cujos empreendimentos intelectuais seguem à risca as prescrições do mecenato oficial” dos quais nos fala Sergio Micelli. Em Intelectuais e classe dirigente no Brasil,[9]Micelli faz suas as palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade:
O emprego do Estado concede com que viver, de ordenado sem folga, e essa é a condição ideal para bom número de espíritos (...) O escritor – homem comum, despido de qualquer romantismo, sujeito a distúrbios emocionais, no geral é preso à vida civil pelos laços do matrimônio, cauteloso, tímido, delicado. A organização burocrática situa-o, protege-o, melancoliza-o e inspira-o. Observe-se que quase toda a literatura brasileira, no passado como no presente, é uma literatura de funcionários públicos. (...). Seriam páginas e páginas de nomes, atestando o que as letras devem à burocracia, e como esta se engrandece com as letras. (...) Há que contar com elas, para que prossiga entre nós certa tradição meditativa e irônica, certo jeito entre desencantado e piedoso de ver, interpretar e contar os homens (...) o que talvez só um escritor-funcionário ou um funcionário-escritor, seja capaz de oferecer-nos, ele que constrói, sob a proteção da Ordem Burocrática, o seu edifício de nuvens, como um louco manso e subvencionado.[10]
Como escritores-funcionários, através do exame e da crítica da realidade do país e de suas letras, esse grupo de escritores uruguaios se propõe desmitificar temas que já eram estéreis e aproximar-se do leitor totalmente afastado da literatura pelo hermetismo das torres de marfim em que se glorificaram as gerações anteriores.
Para isso, esses escritores-funcionários irão promover a renovação da linguagem e do estilo poético, a restauração do rigor da crítica e o reimplante do incorformismo com o estado das coisas.
Como crítico, reflete Benedetti em “El Uruguay cambia de voz”:
La estabilidad burocrática ha sido, desde el punto de vista de la creación artística, una suerte de banco de arena. Allí estamos encallados. (...) Nos llegan voces, sobre todo de América. Pero la “sabana” de Gallegos no se parece a nuestros llanos; el “metal simbólico” de Céspedes no está en nuestro subsuelo; el “guarapo” de Jorge Icaza no tiene el gusto de nuestro Espinillar; el “Senhor Presidente” de Miguel Angel Asturias no halla todavia su equivalente en ninguno de nuestros señores consejeros.[11]
A realidade uruguaia é outra. Como tema, cenário e paisagem do escritor-funcionário, público ou privado, a cidade real passa a encenar-se no texto literário. Seu mapa agora não é mais traçado sob a égide da norma européia, mas pelas intrincadas fissuras da des-ordem do signo poético que representa, na escritura, os passos dos que transitam pela cidade: os cidadãos que se lêem durante a travessia, nas páginas da ficção: Con Benedetti resultaba fácil leer poesía en los ómnibus.[12]
Assim como Rulfo e Garcia Marquez inventaram – em Comala e Macondo – as suas geografias pessoais como um gesto secreto de americanizar um local restrito, Benedetti opta por converter sua paisagem em geografia humana e dar lugar a sua personagem – o cidadão de Montevidéu – para refletir sobre a condição do homem na cidade latino-americana moderna.
Com esse jeito entre desencantado e piedoso de ver, interpretar e cantar os seus concidadãos, mobilizado por uma angústia que se originava no fato de que essas pessoas, gente inteligente, sensible, llena de posibilidades creativas, se iba agrisando, mediocrizando, debido a la actitud de conformismo y al fanatismo de la seguridad, que eran casi inherentes a la burocracia, [13] o autor se propõeacordar esse cidadão aletargado pela sua mentalidade de oficinista, e incitá-lo a promover mudanças na ordem imposta.
Se a oficina seconfigura como um modo de sentir o mundo, ela pode ser vista também como motivo de poesia, que assim coloniza um âmbito novo na literatura. Para expressá-lo, Benedetti cria um código poético. Note-se o poema “Datilógrafo”:
Montevideo, quince de noviembre
de mil novecientos cincuenta y cinco
Montevideo era verde en mi infancia
absolutamente verde y con tranvías
muy señor nuestro por la presente
yo tuve un libro del que podía leer
veinticinco centímetros por noche
y después del libro la noche se espesaba
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hemos efectuado por su cuenta
quién era ah sí mi madre se acercaba
y prendía la luz y no te asustes
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y sólo veía sombras como caballos
y elefantes y monstruos casi hombres
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en un todo de acuerdo com sus órdenes
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y qué optimismo tener la ventanilla
sentirse dueño de la calle que baja
jugar con los números de las puertas cerradas
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registrarlo en su cuente corriente
absolutamente verde y con tranvías
y el Prado con caminos de hojas secas
y el olor a eucaliptus y a temprano
saludamos a usted atentamente
y desde allí los años y quién sabe.[14]
A não-lineraridade, o estranhamento na alternância dos discursos no novo código poético provocam um mal-estar que incita à reflexão. Parece haver uma ordem, na Montevideo do presente, na carta que se datilografa, e, em seu transcurso, surge a desordem do recuo para o passado numa cidade arquitetada pela memória – uma cidade utópica em cuja tecitura parecem perfilar-se desejos, esperanças, lembranças coletivas.
Na personagem da ficção poética, configura-se o molde do cidadão uruguaio oficinista que, como ser humano tem seus sonhos, mas fica submergido nas formas fixas do trabalho burocrático da datilografia. Em seu trabalho, na carta comercial, pode ser lida a língua pública e de aparato das relações protocolares impostas, desde a conquista, para estabelecer e manter as relações de poder da cidade letrada.
Mas, por dentre os fios da trama fechada dessas letras irrompe o verso, a língua privada das esperanças e os delírios, dos desejos de ser numa cidade real que nela os inclua.
Na reconstrução nostálgica da idade de ouro perdida – que é associada à infância – a personagem parece voltar à época em que o seu bem estar lhe era garantido pela cidade/estado. Há Seguridad na presença da mãe que dá aconchego e vigia seu sono; há liberdade para atravessar a cidade sem pressa no tranvía e brincar com suas portas e seus números; há otimismo em poder estar perto da janela e poder ser o dono dessa rua; há o orgulho em poder ler um livro antes do sono, venticinco centímetros por dia; há até cores e cheiros. Mas ao crescer, no passar dos anos, há a angústia da incerteza do futuro.
Nas imagens da noite que se espessa, das sombras dos monstros quase homens, o poeta deixa transparecer gradualmente, a consciência da realidade nua: a velha ordem do passado havia sido fantasiada e transformada em mito. Um mito que aprisiona tanto quanto o faz, no agora, a própria teia da burocracia. Um sonho o passado, só sonho o futuro, e a reparar esse estado, em suas palavras e imagens, acode a escritura para acolher e dar rumo às forças desejantes na poesia.
A tentativa de quebrar a couraça de apatia que recobre o leitor/personagem e estabelecer com ele uma sintonia emotiva pode ser visto no poema “Angelus”:
Quien me iba a decir que el destino era esto.
Ver la lluvia a través de letras invertidas,
un paredón con manchas que parecen prohombres,
el techo de los ómnibus brillantes como peces
y esa melancolia que impregna las bocinas.
Aqui no hay cielo,
aquí no hay horizonte.
Hay una mesa grande para todos los brazos
y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro dia se acaba y el destino era esto.
Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
y, claro, está prohibido llorar sobre los libros
porque no queda bien que la tinta se corra.[15]
Angelus, a hora da prece, fim de tarde, fim de mais um dos tantos dias de expediente na oficina, o eu lírico examina e questiona o seu destino, condenado à mesa do escritório, onde seus braços trabalham junto a outros braços, cooptados para registrar as letras sobre os livros e sentindo-se preso à cadeira, que embora gire, dando a ilusão de uma possível saída, só gira sobre si mesma, sem sair do lugar, sugerindo a vertigem de um redemoinho que ali o imobiliza.
Suas perspectivas, metaforizadas na janela, parecem nulas: não há céu, nem horizonte. Lá fora só tem chuva. Uma chuva que transforma os vidros em espelhos que, ao refletir as letras, o remetem de novo aos livros. As letras aparecem invertidas na janela, estão fora de lugar, impedindo a passagem para o sonho, para as realizações, para a fuga, sujeitando-o à trama da escritura dos signos dos outros, não os seus.
Da cidade, só se consegue perceber as grandes paredes dos prédios vizinhos, os muros que o aprisionam. Sobre eles, as manchas que se configuram como os homens ilustres que as dominam. Nos tetos dos ônibus, onde parece brilhar a perspectiva da volta para casa, uma promessa não mais tão atrativa, em meio ao caos do tráfego e à resignação ao caos, na queixa melancólica das buzinas.
A ordem que o encarcera através do trabalho burocrático não dá direito ao eu lírico. Suas lágrimas não podem borrar a tinta das páginas dos livros que registram os lucros do empreendimento secular que o segura.
A esse sujeito, de quem se configura como voz e porta-voz, Mario Benedetti oferece, através da singularidade de seu verbo poético, a possibilidade de ação libertadora, a esperança para se buscar um atalho que fuja do domínio da metrópole e se possa, assim, dizer de uma cidade sua:
y esta ciudad sin párpados
este país que nunca sueña
de pronto se convierte en el único sítio
donde el aire es mi aire
y la culpa es mi culpa.
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y cuando miro el cielo
veo acá mis nubes y allí mi Cruz del Sur
mi alrededor son los ojos de todos
y no me siento al margen
ahora ja sé que no me siento al margen.[16]
O olhar de Benedetti passeia pela sua cidade não como o flâneur anônimo de Benjamin, mas como o caminhante à procura de comunicação com o outro em busca de empatia.
Ao fabricar sua própria geografia, o poeta não desenha seus planos com o compasso racional do arquiteto da cidade ordenada, mas com as esperanças e delírios da ficção e da crítica construídas como cidades de papel. A especificidade da formação da cidade uruguaia mantém, no entanto, caráter universal na medida que o autor reflete sobre a condição humana e sua posição na sociedade moderna.
Se, para Benedetti a transformação da cidade uruguaia pode ser vista como a fundação de novas dinastias, é possível rastrear, na reconstituição da dinastia dos Benedetti no Novo Mundo, o traçado do sonho moderno da cidade letrada de Angel Rama. Para caracterizá-la, recorreu-se, aqui, ao roteiro de Rama que passa de história social a história familiar para recaer por último en cuasi biografia, anunciando la previsible entrada de juicios y prejuicios, realidades y deseos, visiones e confusiones,[17] encontros e desencontros, via Piriápolis e Montevidéu.
[1] Hugo ALFARO. Mario Benedetti, detrás de un vidrio claro. Montevideo: Trilce, 1986.
[2] Angel RAMA. La ciudad letrada. Hanover: Ediciones del Norte, 1984. p.8-9.
[3] RAMA, 1984. p.24-25.
[4] Ver em M. SCHURMANN, M. L. COLIGAN. Historia del Uruguay: siglos XIX y XX. Montevideo: A. Monteverde y Cia., 1976. p.50.
[5] Beatriz SARLO. Una modernidad periférica: Buenos Aires 1920 y 1930. Buenos Aires: Nueva Visión, 1988.
[6] Ver em Mario BENEDETTI. Temas e problemas. In: Fernandez MORENO (Org.). America Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.369.
[7] Emir RODRIGUEZ MONEGAL. Literatura uruguaya de medio siglo. Montevideo: Alfa, 1964.p.14.
[8] Mario BENEDETTI. El país de la cola de paja. Montevideo: Ciudad Vieja, 1961. p.37.
[9] Sérgio MICELLI. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). São Paulo: DIFEL, 1979. p.186.
[10] Carlos Drummond de ANDRADE. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964. p.658-659.
[11] Mario BENEDETTI. Literatura uruguaya siglo XX. Montevideo: Arca Editorial, 1991. v.26, p.30.
[12] ALFARO, 1986. p.28.
[13] Ernesto GONZALEZ BERMEJO. El caso Mario Benedetti. In: RUFINELLI, Jorge (Comp.). Variaciones críticas. Montevideo: Libros del Astillero, 1973. p.27
[14] Mario BENEDETTI. Inventario Uno (Poesia completa 1950-1985). Buenos Aires: Espasa Calpe S.A., 1993.p.569
[15] BENEDETTI, 1993. p.575.
[16] BENEDETTI, 1993. p.497.
[17] RAMA, 1984. p.106.